sábado, 28 de novembro de 2009

CARTA PARA PAPAI NOEL


Meu querido velhinho do pólo norte, protetor dos fracos e dos mais desvalidos, que a tudo olha e pode agir sobre o sonho das pessoas, principalmente daquelas mais inocentes, ponho-me aos teus pés e te suplico: escuta-me!

Toda a minha vida foi cercada de dificuldades. Meu pai, que sobrevivia do recolhimento de papel, plástico e latas de alumínio no lixão da minha cidade, há 10 anos morreu e deixou minha mãe desempregada, cuidando de nove filhos.

Passamos muita fome e muita privação. Doentes, quatro dos meus irmãos morreram de moléstias banais, como uma simples gripe. A desnutrição foi mais responsável que a agressão do vírus e da bactéria. Outros três irmãos enveredaram na vida do crime e transformaram-se em "aviãozinhos" do tráfico. Dois foram mortos pela polícia e o outro está preso. Restaram eu, meu irmão e minha mãe, que trabalha de lavadeira para nos sustentar, dando-nos o mínimo necessário para sobreviver. Eu, mesmo respeitando o grande esforço dela, sei que precisamos de muito mais para ter uma condição de vida, no mínimo, razoável.

Lutei muito. Estudei em colégio público, usando o material de outras pessoas, já que não tinha dinheiro para comprar os meus próprios. Catei ponta de lápis no chão para poder escrever e registrar as minhas aulas em meu caderno, que era um conjunto de várias folhas presas por um “clipse”. Mas eu consegui. Prestei vestibular para uma universidade pública, a única que conseguiria cursar, haja vista que é gratuita.

Vencidos todos esses obstáculos que a vida me presenteou, fui surpreendida por mais uma inexplicável dificuldade. No vestibular, teria de enfrentar a feroz competição de conhecimento, cujos beneficiários são as pessoas com melhor nível de renda, que estudaram em instituições de ensino de qualidade. Além disso, me era exigido superar os índices privilegiados da cota racial. Não achava aquilo justo. O problema é que sou branca e pobre.

Pela primeira vez na minha vida, apesar do orgulho de tantas vitórias conquistadas, desejei ser diferente. Surpreendi-me enquanto reclamava do destino. Logo eu que havia conseguido vencer tantos desafios sem nunca reclamar nada. Minha mãe não podia ser culpada, aliás, eu não poderia responsabilizar ninguém.

É por tudo isso, Papai Noel, que lhe peço: Mude a cor da minha pele. Eu quero ser negra. Tenho consciência do grande débito da sociedade com os negros, mas esse débito existe também para com os pobres. Eu preciso passar no vestibular e sei que, como branca e pobre, não conseguirei ultrapassar as pessoas brancas ricas e as negras, que terão, no vestibular, uma situação privilegiada em relação a mim. Se pelo menos eu fosse rica, teria estudado em melhores colégios e não teria precisado trabalhar tanto para ajudar a minha mãe. Certamente não precisaria da ajuda do Senhor.

Só tenho o Senhor para apelar, pois os políticos que dizem me representar, nunca o fizeram. Dizem que protegem o povo, mesmo sabendo que o povo é constituído, em sua maioria, por pessoas de baixa renda. Acho que estão brincando conosco. Como é que se esqueceram dos nós, os pobres, quando lançaram essas cotas?

Meu bom velhinho, fico aqui esperando-o. Não precisa se preocupar em descer pela chaminé, pois não temos nem fogão na minha casa, o que dizer de uma lareira. Entre pela porta mesmo e cuidado com ela, pois está solta e pode cair em cima do Senhor. Deixarei, sobre a mesa, um pedaço de pão e um copo de leite, para ajudá-lo na empreitada da Noite de Natal. Ah! Ia esquecendo. Se ouvir estampidos, cuidado com as “balas perdidas”.

Beijos de uma grande admiradora que pensa, também, ter direito a uma vida melhor.

domingo, 15 de novembro de 2009

ANTES EMPATAR QUE VENCER!


Outro dia, em uma roda de amigos, sem perceber, ao deixar que meus pensamentos fluíssem, escapou-me a seguinte expressão: “Em termos de equipe, empatar é mais importante que vencer!”. Como não podia deixar de ser, meus amigos, surpreendidos, me interpelaram imediatamente, afirmando que o negócio é vencer sempre, perder... jamais.

O que eu disse, de forma isolada e considerando que vivemos em uma sociedade que transformou a convivência humana em uma verdadeira competição de “vida e morte”, reconheço, é para causar espanto.

Estou ciente de que a competição é elemento básico e natural entre os seres vivos. Todos eles competem para ocupar seus espaços e garantir a sobrevivência. Nós, humanos e pseudo-racionais, deveríamos utilizar esse tal de raciocínio para nos diferenciarmos dos ditos irracionais, mas não estamos fazendo assim. Ao contrário, todo dia é dia de luta, de competição. E fico a me perguntar se essa é a única forma de viver.

Neste momento da minha vida, não acho que a competição entre os seres humanos deva ser tão necessária quanto é na vida irracional/vegetal. A minha frase sobre o empate, na verdade, reflete a essência e a configuração do que tenho pensado ultimamente.

Para que eu possa me fazer entender, preciso reconhecer que todos nós, especialmente as últimas gerações, somos frutos de uma louca “corrida ao dinheiro”. É a transformação do dispensável em artigo de primeira necessidade. As últimas gerações foram formatadas para competir, derrubar seu semelhante a qualquer preço, e acumular cada vez mais, de preferência, retirando o máximo dos seus semelhantes. Em suma, seguir o velho ditado de que “a medida do ter não enche nunca”. É diante disso que aceito o espanto dos meus amigos.

Não quero subverter a formação cultural/social de ninguém, porém gostaria de fazê-los enveredar por um outro vértice do raciocínio. Pensemos em tudo como se fossemos uma equipe de futebol. Enquanto equipe, pretendemos vencer os nossos adversários. Neste caso, queremos que todos os componentes da equipe se saiam igualmente bem. Se isso ocorre, todos empatam entre si. Concordam? Neste caso, o empate é o melhor que pode acontecer.

Quando, em uma equipe, alguém busca notabilizar-se mais que os outros companheiros, existirão vencedores e vencidos. O que ocorrerá é que essa equipe estará fadada ao insucesso, apesar de alguns se acharem, momentaneamente, vencedores. Já, neste caso, a vitória de uns não será melhor que o empate entre eles mesmos.

Numa equipe, o equilíbrio é fator fundamental para seu sucesso. Ninguém pode ser melhor que ninguém, dentro de uma equipe. Todos têm a sua importância e, por isso, equiparam-se entre si, para que se alcance o objetivo do grupo, ou seja, deve existir uma situação de “empate”.

Infelizmente, no ambiente do nosso trabalho, também acontece essa mesma guerra intra-equipes que é, muitas vezes, alimentada por consultores renomados, travestidos de senhores da verdade, e por chefes despreparados. Todos eles fazem apologia à vitória pessoal e individual nem que, para isso, sejam sobrepujados e destruídos aqueles “fracos e despreparados” que estão em seu caminho, independentemente de esses “fracos” estarem dentro da sua própria equipe. A lei passa a ser a de que “os fins justificarão os meios”.

A competição entre os seres humanos os desumaniza, já que destrói a cooperação e a solidariedade, instrumentos fundamentais (estes sim) para uma cordial e humana convivência. Por isso que, ultimamente, tenho preferido empatar.

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS

terça-feira, 10 de novembro de 2009

SENTA QUE O LEÃO É MANSO

No meio empresarial, o banco ostenta um conceito que representa a dicotomia entre o salvador da pátria e os assustadores cavaleiros do apocalipse. As maiores reclamações sobre qualquer banco são, basicamente, duas: a primeira é a de que o banco é muito lento e burocrático para emprestar dinheiro e a segunda é a de que o banco é ladrão, não se importa com a atividade produtiva e que só quer lucrar.


A maior parte das reclamações estará concentrada nessas duas vertentes, de acordo com a situação experimentada por eles. A primeira afirmação será feita por aqueles que precisam mortalmente do banco e que sua situação financeira vexatória não recomenda demora. A segunda, com certeza, sairá dos usuários que já estão endividados e apresentam situação financeira comprometida e sem condições para alcançar outros empréstimos bancários.

Em todo caso, todos reclamam mesmo dos bancos. No entanto, poucos perceberam que o banco é uma atividade empresarial como outra qualquer. O banco comercializa produtos, tanto quanto os demais estabelecimentos. A confusão, muitas vezes, está na forma deletéria como os praticantes da usura são vistos, desde os primórdios da vida econômica do mundo. Fato esse bastante reforçado pela mídia em geral.

Mas vamos ver de outra forma. Imaginemos o banco como uma farmácia. Da mesma forma como a farmácia vende produtos que visam manter ou restabelecer a saúde das pessoas, o banco vende dinheiro para manter ou restabelecer a saúde financeira da empresas. Dito assim parece até piada. Porém, não é.

O que faz a confusão é que o banco é tido como uma instituição tirana que leva todos para a miséria e joga os trabalhadores e empresários na lama. Bem trágico não é? Então vamos ver como uma farmácia também pode ser tirana. Imagine que você chega à farmácia com uma dor de cabeça daquelas e o farmacêutico te receita uma remédio em uma dosagem 10 vezes maior que a adequada. O que acontece? Certamente você vai ter grandes complicações com sua saúde, com grande risco de morrer.

O que se depreende é que a farmácia, tanto quanto o banco, somente serão úteis se o produto comprado e digerido pelo cliente for adequado, bem como sua dosagem definida corretamente. O médico, assim como o dirigente da empresa, precisa saber qual remédio e dosagem a receitar, respectivamente para o paciente e para empresa, sob pena de matá-los ou não curar a doença.

Se você é dos que acham que banco é um bicho-papão, passe a vislumbrar o que ele pode lhe proporcionar de bom. Lembre, também, que nenhuma economia floresceu sem a utilização do empréstimo de capital de terceiro, especialmente aqueles originados nos bancos.

Por tudo isso é que eu sempre recomendo que, se você estiver doente, procure um bom médico.

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS
10.11.2009

domingo, 8 de novembro de 2009

O BARULHO DE ESTOURO DE BOIADA

Em minha vida profissional me deparei com uma infinidade de circunstâncias onde a melhor decisão não era aquela que estava ali, na minha frente, dando pinta de que não havia outra possibilidade e que a chance de errar era praticamente nula.

Existem ocasiões em que a própria equipe, pressionada pela tensão do dia-a-dia e motivada pelo interesse de contribuir da melhor forma para uma solução rápida, passa a colocar o problema como centro do universo, gerando um clima de pressão velada sobre o gestor.

Muitos de vocês, talvez, já devem ter enfrentado aqueles momentos de pressão no trabalho, especialmente em que componentes da equipe chegam para o gestor e dizem assustados: - Chefe, o pessoal está todo reclamando do horário de funcionamento do nosso atendimento. Todos os clientes dizem que não devíamos começar o atendimento às 08 horas. Eles estão querendo que o atendimento se inicie às 07 horas, pois é um horário mais adequado e as pessoas não perdem parte importante do dia.

O que você faria? Mudaria rapidamente o horário de atendimento e correria para comunicar a todos que o novo horário era aquele que a sua equipe estava dizendo ser a opinião de todos os clientes? Faria isso sem pestanejar e avaliar as perdas financeiras que poderiam vir acompanhadas da decisão?

Olha que estamos falando de “feedback” dos clientes e isso, acima de qualquer coisa, merece toda a nossa atenção. Normalmente o chefe, pressionado pelas circunstâncias, atende rapidamente ao anseio da equipe e muda ou estende o horário de atendimento, mesmo quando aquilo representa uma perda financeira. Na cabeça do chefe só está rondando aquela mensagem que já escutou tantas vezes: o cliente sempre tem razão e pronto! Por outro lado, vivemos um mundo de mudanças em alta velocidade e somos pressionados para agir na mesma velocidade.

Bom, vamos por partes: em primeiro lugar, indiscutivelmente, a agilidade é sempre necessária. O que as pessoas normalmente não notam é que uma decisão para ter uma grande chance de acerto, ela precisa ser cercada de informações, muito mais que de agilidade. Decidir sem dados é fatal, mesmo quando é feito com rapidez. Lembrem sempre que se deve evitar confundir decisão apressada com decisão ágil.

Em segundo lugar, gostaria de reconhecer que é muito importante estar alerta à opinião dos clientes. A empresa deve seguir a direção da vontade e desejos das pessoas e, especialmente, dos seus clientes. No entanto, é bom estar também alerta para um fato corriqueiro em nossas organizações que denomino “barulho de estouro de boiada”.

Como a própria frase quer dizer: mais importante que ter a capacidade de ouvir o “barulho”, precisamos saber se a boiada existe. Um líder não pode tomar decisões ouvindo, apenas, o barulho da boiada. Explico: Quando falamos em opinião dos clientes, devemos ter certeza de que estamos tratando da manifestação de parte significativa desses clientes. Caso contrário, é só “barulho”.

Quando você se deparar com casos como esses, algo muito comum em todos os ambientes de trabalho, não se deixe levar pela emoção da sua equipe. Apesar de a emoção ser mola propulsora para a superação de obstáculos, o líder tem a obrigação de usar a razão para analisar as situações que lhes são apresentadas. Então, questione; busque todas as informações necessárias; estruture, se necessário, uma pesquisa rápida e simples para averiguar a quantas vezes o fato apontado ocorre. Caso o número se apresente inexpressivo é porque existe uma grande chance de aquilo ser, somente, “barulho de estouro de boiada”. Neste caso, a única decisão a tomar é continuar observando.

Na maior parte das vezes, e você pode comprovar isso, esses casos são apenas defeitos de avaliação da equipe, situação em que é necessária a intervenção formadora do líder, para aferição da correção do que está sendo percebido pela equipe, sem perder a excelente oportunidade de crescimento profissional de todos.

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS
08.11.2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A CADEIA ALIMENTAR DO FUTEBOL

O que conhecemos por Cadeia Alimentar é a estrutura que rege a sobrevivência em nosso planeta. É a mesma coisa de quando falamos em “lei da selva”. Estamos igualmente tratando das regras naturais que determinam a forma de sobrevivência de todas as espécies do nosso planeta. A regra diz que o mais forte vence o mais fraco, dentro de toda a pirâmide que forma a Cadeia Alimentar. O que é importante ver é que o mais fraco, dentro de cada segmento da Cadeia, tem tanta importância quanto o mais forte, uma vez que a sua existência e sacrifício é que viabilizam a continuidade da vida.

No futebol, apesar de não nos darmos conta, acontece algo bem parecido. O que atrapalha é quando os dirigentes, principalmente daquelas instituições, ditas mais fracas, não se reconhecem na base da Cadeia Alimentar do Futebol e, assim, e tentam subverter a ordem natural das coisas.

O que diferencia o futebol do reino animal é que as posições entre os fracos e fortes podem se alternar, dependendo da competência dos que dirigem as instituições envolvidas. Imaginemos a hipótese de um Príncipe Árabe do Petróleo se encantar com o Auto Esporte Clube da Paraíba ou com o Potyguar do Rio Grande do Norte. Caso isso viesse a acontecer e esses clubes fossem inundados por dólares e euros, a ordem normal das coisas iria, certamente, se inverter.

Levando em conta que estamos falando de um sonho praticamente inatingível, resta reconhecer a posição de cada um na Cadeia Alimentar do Futebol: Nossos clubes do Nordeste, especialmente dos estados menores, estão na BASE da Cadeia. Inicialmente isso pode parecer totalmente negativo. Não é verdade. O fato ter consciência das suas potencialidades e carências é de fundamental importância para o correto planejamento de um clube de futebol. Pois é, até agora eu estava mesmo falando de planejamento.

Vamos em frente. Vocês sabem que nossos clubes dependem dos jogadores egressos do campeonato paulista, para formação dos seus plantéis, com vistas à disputa do campeonato nacional. Da mesma forma, os nossos clubes sofrem com a escassez de jogadores de melhor nível, quando o Campeonato Paulista está em andamento.

Parece difícil de solucionar, mas não é. Vamos traçar um paralelo com a Cadeia Alimentar: é sabido que os principais clubes da Europa e Ásia se lançam na busca dos jogadores da África e das Américas do Sul e Central, uma vez que conseguem fazê-lo sem dispender maiores somas de dinheiro, como teriam de fazer, quando o jogador já está na Europa. Da mesma forma, o clubes do centro sul do Brasil vem para cá para levar, bem baratinho, nossos jogadores.

E com relação a nós, tem jeito para isso? É claro que tem. Vamos fazer a mesma coisa que os que estão acima de nós, na Cadeia Alimentar. Se o jogador dos grandes centros é caro, devemos ir à busca daqueles que estejam escondidos em centros menos badalados, no que diz respeito a futebol. É como fazer valer a lei da selva, vamos buscar jogadores em centros que não podem concorrer conosco, em matéria financeira, de estrutura ou de tradição.

Temos, pelo menos, 8 estados (Tocantins, Roraima, Rondônia, Piauí, Maranhão, Amazonas, Amapá e Acre), de menor expressão no futebol que o nosso Estado, para ir garimpar lá jogadores para nossas equipes, isso sem falar nas diversas cidades do interior dos estados do Nordeste, de onde, de vez em quando, são pinçados jogadores para equipes do sul e sudeste Brasileiro, bem embaixo dos nossos narizes.

Parece coisa do outro mundo, mas não é. O orçamento para isso não é maior que o valor pago a certos jogadores que vêm por aqui e não fazem jus ao prato de refeição que comem. O difícil, reconheço, é ter um profissional de visão para realizar esse importante trabalho. Isso nada mais é que o retorno do olheiro, função que os nossos dirigentes substituíram pelo famigerado DVD.

Não poderia afirmar com segurança o orçamento mensal com cada um desses profissionais, mas me arrisco a dizer que o valor de despesas e salário não ultrapassaria a casa dos R$ 6.000,00, por mês/profissional. Se forem três profissionais esse valor seria de R$ 18.000,00. O que tenho certeza é de que o retorno, representado pela redução de folha mensal do plantel e pela possibilidade de ganhos na venda desses valores, será bem maior do que o que os nossos clubes vêm conseguindo com a metodologia atual de formação de plantel.

E tem mais: quem começar antes, vai colher os frutos mais cedo. O certo é que falamos de boa técnica administrativa, o que só se consegue com a profissionalização na gestão dos nossos clubes.

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS
21.10.2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

CARIDADE COM O DINHEIRO ALHEIO

Desde que me entendo de gente que, quando escuto falar de futebol, ouço aquela velha cantilena: “a evasão de renda é que acaba com o futebol”. O que espanta, ainda mais, é o fato de que são os dirigentes dos clubes e das federações que mais reclamam. Ora, ninguém é inocente. Não preciso citar aqui o porquê de isso tudo acontecer. É tão cristalino que dói.

Prefiro não tocar no assunto “evasão”. Existe outro problema que, esse sim, é trágico para os clubes de futebol: o “caronismo”. Essa tem sido a marca daqueles que comandam os órgãos que administram os estádios públicos e dos dirigentes das federações. Sei que não é idéia deles. Eles somente copiam aqueles que se utilizam espertamente desses artifícios.

Vejam o caso da gratuidade dos idosos. Vendo de longe alguns hão de pensar que se tratou de uma medida humanitária, bondosa e reconhecedora daqueles que criaram a lei e a aprovaram. É muita inocência dessas pobres pessoas. Ora, o que eles fizeram foi praticar a caridade com o dinheiro alheio. Quando, por exemplo, um idoso utiliza gratuitamente o ônibus, ele está contribuindo para elevar o preço da passagem e os demais usuários pagam a conta. Isso é lógico, mas pouca gente nota.

Não preciso nem me estender dizendo que se a aposentadoria daquele idoso fosse justa ele não precisaria dessa “esmola”. É o poder público fazendo com que os outros paguem pela sua incompetência. Seria engraçado ver um grande empresário idoso andando gratuitamente de ônibus.

Do mesmo modo ocorre em um jogo de futebol. Precisamos nos habituar a chamar de “espetáculo de futebol”, porque é exatamente o que uma partida de futebol profissional é: um espetáculo, onde artistas se apresentam para o entretenimento de um grupo de pessoas, que estão dispostas a pagar para vê-los ação.

Quando fico sabendo que estão discutindo a gratuidade, para alguns privilegiados, a ser praticada nos espetáculos de futebol, me pergunto se não seria melhor inverter a ordem das coisas e fazer com que aquele que não pode pagar o ingresso é que fosse beneficiário da gratuidade. Pelo menos, nesse caso, haveria uma justificativa plausível.

Para mim, somente os artistas que se apresentarão e os profissionais no real exercício dos seus trabalhos naquele espetáculo, é que teriam direito à gratuidade. Atletas veteranos ou não, dirigentes de outros clubes (alheios àquele espetáculo), autoridades de qualquer natureza (que não no exercício da sua atividade) e crianças (exceto as de colo) não deveriam ter direito à gratuidade.

Basta olhar em volta e perceber que esse negócio gratuidade é um completo absurdo. Quem for contrário, deveria abrir mão do seu salário ou qualquer renda e passar a trabalhar de graça, ou seja, praticando a gratuidade completa. Quem fizer isso, merecerá o meu respeito.

Falo isso pensando como seria engraçado ver um representante de cada grupamento que citei, no aeroporto, tentando convencer os funcionários de uma empresa aérea de que teria direito de viajar de graça. Ora, não me façam rir.

Por que fazem tão pouco caso do futebol?

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS

domingo, 18 de outubro de 2009

A GUERRA

Sinto-me suspensa no ar por duas mãos que me sustentam firme, mas carinhosamente. O espaço ao meu redor é sombrio. Homens vestidos de negro estão nas proximidades em um cubículo apertado e que recebe pouca iluminação e nenhuma ventilação. O ambiente é angustiante, denso e irradia muita tensão. Fico a me perguntar quem seriam essas pessoas que, com movimentos lentos, porém firmes, se portam como a aguardar que alguma coisa muito importante aconteça.


Eu ali estou perplexa e impotente, presa entre as mãos de um desses homens. Se em um momento sou acariciada, em outro sou apertada e jogada de uma mão para outra, em movimentos nervosos. Isso também me deixa nervosa e desconfortável.

Sinto-me totalmente dominada e sei que esse domínio se dá de forma bastante organizada. A pessoa que me tem entre suas mãos é a que parece comandar as demais. Estou indefesa. O que estaria acontecendo? Ou melhor, o que está para acontecer? O que será de mim?

Continuo nas mãos daquele comandante. Seu exército é diminuto, não passa de dois soldados, porém esses comandados seguem, sem pestanejar, as ordens que recebem.

Finalmente saímos daquele pequeno quarto. Caminhamos, agora, por um extenso corredor que, de tão sombrio, me assusta mais que aquele pequeno espaço que ocupávamos. Na verdade estamos atravessando um túnel. Não consigo definir a cor das paredes, pois estão sujas ou são muito mal pintadas, se é que foram pintadas um dia. O teto é perigosamente baixo, o que me passa uma sensação de opressão, e também recebeu o mesmo tratamento do pintor que cuidou das paredes. A pouca e espaçada iluminação contribui ainda mais para deixar o lugar triste. O meu medo só aumenta.

Os soldados que me levam, a cada passo que dão, ficam mais nervosos. Eu posso sentir o suor umedecer as mãos do comandante. O que estariam pensando? O que temiam? Seguem por aquele corredor lúgubre, em completo silêncio. Vez por outra, fitam uma tênue luz que se vislumbra bem no fim daquele funesto túnel.

Agora o inquietante silêncio começa a ser quebrado por sons ainda tímidos. O que teria acontecido? Escuto, ao longe, sons inteligíveis. Será música? Não sei. Não dá para identificar, mas percebo que existe alguma maleabilidade na constância daqueles sons. Se não é música, é algo que se complementa em ritmo lógico e cadenciado. Quieta, aguço meus ouvidos. Os sons me chegam com mais volume, à medida que sou levada na direção daquela luz, que fica cada vez mais forte.

Agora consigo identificar. Não é uma música, são várias e executadas juntamente com gritos desconexos. Meu medo só aumenta. Não entendo nada do que está acontecendo. Será que estou sendo levada ao patíbulo? O que teria feito para merecer tão triste fim? Será que aquelas pessoas comemoram minha execução? Continuo firmemente presa entre as mãos daquele impiedoso comandante, que caminha lentamente e a passos firmes na direção daqueles assustadores sons. Estou em pânico.

Preciso de respostas. Não agüento mais aquele suplício. Por que ninguém me acode? Vejo que algumas pessoas pelas quais passamos me olham com um ar de curiosidade e de apreensão, mas não sentem pena. Pelo contrário, às vezes, demonstram alegria. Recebo algumas tapinhas nas costas, enquanto vou sendo conduzida entre essas pessoas. Algumas crianças sorriem, gritam e pulam. Será que até aqueles inocentes se regozijam com o meu sofrimento? Que povo desalmado era aquele?

Posso notar que o corredor vai terminando e a luz está ficando mais forte. Aquela intensa luz me agride, pois meus olhos não estão ainda acostumados a tanta luminosidade. Só agora notei que o piso daquele corredor, diferentemente do teto e das paredes, é revestido com alguma coisa macia, apesar de ser preto e assustador. Algumas vezes sou jogada contra aquele piso, porém não sinto dor. Ao contrário, me sinto estranhamente confortável ao tocá-lo. Continuo, ainda, presa entre as fortes mãos do comandante.

O barulho, agora, é ensurdecedor. Estávamos no final do corredor e começamos a subir uma escada, que se estendia na direção daquela forte luz. O meu fim estava chegando, pensei. Apurei o ouvido. Era música aquilo que eu ouvia. Aliás, muitas músicas cantadas ao mesmo tempo. Por incrível que pareça, começava a me sentir aliviada e feliz. Será que nosso organismo nos embriaga com doses excessivas de alucinógenos para que não sintamos o sofrimento da morte? Só podia ser isso.

Chegamos ao topo da escada. Descortina diante dos meus olhos um grande espaço colorido. É um festival infindável de cores sem que eu consiga entender o nexo entre elas, talvez por ter cor para todos os gostos. O que vejo é bonito e contagiante, bem diferente daquele triste lugar do qual acabara de sair. O som dos gritos parece querer me enlouquecer. Se aquela multidão estava ali para presenciar minha execução, não o faziam com nenhum sentimento de ódio. Na verdade eu sentia uma áurea de contentamento e de prazer. Será que a minha morte provocava tanta alegria para aquele povo sádico? Voltei a sentir aquela sensação de perda. Na verdade, perda de mim mesma.

O céu está limpo e o sol brilha intensamente. Corre uma brisa agradável que me envolve e consola. Era um lindo dia para viver... e eu ia morrer. Aquilo não poderia estar acontecendo. Eu não lembrava ter feito nada para ser tirada do convívio dos meus. Aquilo era uma verdadeira injustiça.

Minha preocupação aumenta quando noto que o tom da música se modifica abruptamente. Enquanto o comandante me conduz para o descampado, acompanhado dos seus inseparáveis soldados, ouço gritos ameaçadores e que transmitem, desta vez, ódio. A quem ameaçam? A mim? O que teria acontecido para aquela multidão passar da alegria ao ódio com tanta rapidez? Estava atônita.

Parece que os soldados se assustaram com aqueles gritos ameaçadores, pois correu um para cada lado, deixando o comandante sozinho no meio do descampado. Eu, infelizmente, ainda continuava sob o domínio do comandante, presa entre as suas mãos.

Tão rápido como começou a gritar ferozmente, a turba voltou a entoar os cânticos anteriores, pulando de alegria. Essa alternância de comportamento me deixava mais nervosa e perdida.

Vejo que o descampado, agora, está cheio de pessoas. O meu comandante, bastante nervoso, me atirou, com força, no chão. Para minha surpresa, aquele solo era ainda mais macio que o piso do escuro corredor por onde passara. Estranhamente não sentia dores. Ao contrário. Eu estava gostando daquilo, como se houvesse em mim um sentimento masoquista. Não podia negar, estava mesmo uma delícia.

Havia uma multidão ao meu redor. Todos queriam me pegar. Eles me apalpavam indecentemente, comprimiam, beijavam, é isso mesmo: beijavam. Eu ali impotente me deixava luxuriosamente ser abusada. Eu continuava gostando. O que iria dizer aos meus pais? Engraçado, naquele momento, não lembrava muito bem deles.

O comandante não para de dar ordens. Parece até que seu exército aumentou. Devem ter chegado outros destacamentos. Vestem fardamentos diversos, mas o obedecem cegamente, da mesma forma que os outros dois soldados que o acompanharam até bem pouco tempo atrás. Falando nisso, onde será que aqueles covardes se meteram?

Depois de muita discussão em minha volta, um dos comandados me abraça com um carinho que eu ainda não havia sentido em toda a minha vida. Olha para mim com admiração e me faz deitar delicadamente naquele macio chão. Fico ali, inerte. Espero. O que iriam fazer comigo? Era chegada a minha hora? Não acreditava, pois ninguém machuca a quem trata com tanto carinho. Aquele soldado haveria de me proteger.

Não deu tempo nem de pensar. Subitamente outro soldado me bate com os pés levemente duas vezes e, para minha surpresa, me aplica um vigoroso chute na altura dos rins. Quero tossir e não me sinto estimulada. Estranho, mais uma vez não sinto dores, aquilo não me machuca, parece um carinho. – É... Devo estar no meu último estertor, deve ser a “visita da saúde”.

Sou jogada de um lado para o outro. Brigam por mim. Todos querem me maltratar. Parece até que a minha morte vale prêmio para aqueles soldados. Se as minhas roupas não estivessem tão justas, já teriam me rasgado toda. De repente acontece uma gritaria infernal. Há um soldado inerte, no chão. – Ei! Eu não fiz nada. Não fui eu que o atingi, gritava eu sem parar. A confusão estava formada e ninguém me dava ouvidos. Iniciou-se uma pequena briga entre os soldados. Meu comandante – parece até que eu estava gostando dele – ali no meio do tumulto gesticula, grita e empurra. Ninguém atende. Onde estaria seu poder de comando?

Minutos nervosos se passam e, para minha surpresa, aqueles que queriam me destruir estão ali discutindo e esqueceram-se de mim. Surpreendo-me detestando aquela situação. Passado tanto tempo sendo alvo da atenção dos meus algozes, estava ali desprezada e eu não gostava nem um pouco daquilo. Queria voltar a ser o centro das atenções, mesmo que aquilo significasse a antecipação do meu fim. Os gritos não param, a música fica mais forte e eu noto que nem todos estão a gritar. Uma parte daquela horda está inexplicavelmente em silêncio. Será que teria alguma chance com aquela momentânea discórdia? Eu não estava entendendo nada.

Para meu desespero, com alguns minutos os ânimos serenam. Um soldado, que me parece bastante apreensivo, como se carregasse grande carga de responsabilidade nos ombros, se aproxima de mim, me levanta do chão, me apalpa, me beija e, com inexplicável cuidado, me coloca suavemente de volta ao chão. Fecho os olhos. – É agora, pensei. Eu tremia vigorosamente.

O meu carrasco me deixa e se afasta vagarosamente a passos curtos e sem tirar os olhos de mim. Certamente para que eu não fugisse do meu triste destino. Eu também não tiro os olhos dele. Não há ninguém nas proximidades. Os soldados, à distância, estão olhando para mim, mas por algum motivo que desconheço não se aproximam. Parecem estátuas.

Após um longo e estridente som “trinado”, o meu executor, como que tocado por algo supremo, saiu da momentânea inércia e iniciou uma desembestada corrida em minha direção. Vinha bufando. – Está se mordendo de raiva de mim, murmurei baixinho, vai acabar com a minha triste e curta vida. Fechei os olhos e entreguei a Deus o meu destino.

Assim que chegou, me deu tamanho chutão na boca do estômago que achei que ia botar todas as vísceras para fora. Quase virei completamente ao avesso. Fui arremessada com uma força estonteante, mas não pude precisar a direção, pois viajava de costas, em altíssima velocidade e continuava de olhos fechados.

Ainda senti algo me tocar, pareciam mãos, mas estavam diferentes daquelas que me haviam acariciado, estavam mais grossas e estranhamente pareciam revestidas em plumas. Logo em seguida me vi enlaçada em uma espécie de malha que reduziu a velocidade do meu corpo, me envolveu com doçura e amorteceu a minha queda.

Ouvi um som estrondoso, muito maior do que tudo que já havia ouvido até ali. Alguns soldados passaram a correr loucamente, em todas as direções. Gritavam e pulavam como crianças. Surpreendentemente, constatei que, em contrapartida àquela algazarra, outros soldados estavam tristes e cabisbaixos. Tudo aquilo era uma incógnita para mim. O que danado estaria provocando aquela dicotomia?

Acho que nunca vou descobrir. O que verdadeiramente sei é que ao cair no chão envolvido naquela gostosa malha branca, ouvi, ao longe, vindo da multidão enlouquecida, um grito uníssono que parecia dizer algo como Tôôôôoo, ou Vôôooo, ou, ainda: Gôooool. Ah! Acho que era isso mesmo: Gôôooooooooooooooooooooooooool.

Logo depois me levaram de volta para o meio dos soldados para ser carinhosamente chutada, amassada e arremessada de um lado para outro. Até hoje não compreendi direito o que significou tudo aquilo, nem muito menos o porquê de eu haver me amarrado tanto nesse negócio. Acho que são coisas dos Deuses do futebol...

HERIBERTO GADÊ DE VASCONCELOS